22 de out de 2015

Assédio sim!

Hoje vou falar de uma maquiagem diferente. A maquiagem que camufla a podridão, o poderio e a agressividade machista. 
O assédio sexual não está só nas ruas, não está em quem anda "tarde da noite" - como se isso fosse problema, não está pra quem usa roupa mais curta ou mais comprida. O assédio está no trabalho, na escola, na igreja, na sua própria casa. Independente do lugar, roupa, idade ou sexo.



O que vou contar abaixo é um relato pessoal e verídico, do dia 22 de outubro de 2015.
"Hoje por volta das 22h estava andando com alguns amigos pela Olívia Flores quando observei um carro que passou pela gente e depois voltou do outro lado da pista: andando super devagar, vidros abertos e alguns homens dentro chamando quem andava na rua. Em um certo momento eles quase pararam o carro ao lado de duas garotas que estavam andando e começaram a chamá-las. Durante uns 20m elas se recusaram a atender ao chamado até que uma, rindo, foi em direção ao carro e começou a conversar com eles. A outra, nada confortável com a situação, continuou andando e largou a amiga sozinha com todos aqueles caras.
Nesse momento eu já estava preocupada o bastante por perceber que aquilo se tratava de um assédio, afinal, se esses caras fossem familiares, amigos ou até mesmo conhecidos, elas teriam parado na mesma hora sem pensar se deveriam ou não falar com os sujeitos. E a outra, ainda que não conhecesse, ficaria, já que a amiga os conhecia. Não foi o que aconteceu. Por isso, me direcionei imediatamente ao posto policial, avisando que aqueles homens, naquele carro, estavam assediando as garotas que passavam na rua. Por sorte (realmente, porque isso é raro), os policiais levaram a sério e foram falar com os caras. Uma conversa que não durou mais de dois minutos e eles foram liberados... Depois disso pude vê-los (policiais) passando umas três vezes na rua para observar de estava tudo em ordem.
Por infeliz coincidência, esses mesmos caras comeram onde eu comi, e fui alvo de piadinhas e risadinhas por tentar defender alguém, que assim como eu, é vista como menor, inferior e mais frágil na sociedade. A mulher.

Não satisfeito, um deles gritou mais alto:
- É assédio, né?
SIM, É ASSÉDIO! E ainda que no final das contas as garotas tenham se sentado a mesa com vocês, isso não quer dizer que a forma que você as abordou foi correta OU QUE ELAS QUERIAM ESTAR ALI.
Eu já vi inúmeros relatos de garotas que foram AMEAÇADAS a fazerem o que os caras queriam (andar com eles, se fingir de namorada e até mesmo beijar - dentre as tantas outras atrocidades) para não serem mortas ou violentadas, e se esse tiver sido mais um caso? Carinha bonita e sorriso no rosto não me convence mais, e tenho as minhas dúvidas se elas queriam REALMENTE ter sentado naquela mesa no fim do papo.
É isso, fica o aviso, viu uma situação dessa na rua? Preste atenção, busque ajudar... Eu sei que qualquer pessoa com bom senso consegue avaliar o que é cumprimentar alguém que você conhece X alguém que você acabou de conhecer, ou até mesmo perceber esse tipo de abordagem estranha na rua, que é muito comum.
Eu já passei por isso e não teve ninguém que pudesse me ajudar. Eu sei o desespero, a angústia e medo que qualquer pessoa sente nessa situação. Se você nunca passou por isso, agradeça, mas não deixe de fazer pelo outro o que você gostaria que fizessem por você."


Assédio sexual, ao contrário do que pensam, não é sinônimo de abuso. É menos grave - de acordo a lei - mas não menos execrável ou abominante. O assédio é definido como "receber investidas com tom sexual - cantadas, olhares abusivos e propostas indecorosas", diferente do abuso que é a atividade sexual não desejada, onde o agressor usa a força, faz ameaças ou exclui vantagens da vítima que se torna incapaz de negar consentimento

Muitas vezes esse assédio é justificado como elogio, por parte do agressor que usa desse argumento para maquiar/camuflar todo o sentimento de superioridade e permissão sexual que ele pensa ter sobre aquela vítima.

Poderia passar um dia inteiro relatando situações semelhantes ou piores que já passei relacionadas a isso, mas quem é mulher sabe como é, e pra quem não sabe vou deixar esse vídeo que retrata um pouco essa realidade.


Pra piorar ainda mais a situação, uma pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que 26% (dado corrigido após retratação do Ipea, que divulgou primeiramente que o número seria de 65%*) de 3810 brasileiros entrevistados concordam total ou parcialmente com a afirmação: “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O dado faz parte do estudo “Tolerância social à violência contra as mulheres” e entrevistou tanto homens quanto mulheres. Segundo o instituto, os dados são preocupantes, já que configuram como culpabilização da vítima de estupro.
Como os dados iniciais geraram grande polêmica, novos dados foram computados, mas eu acredito que a quantidade de pessoas que compartilham desse pensamento é de realmente 65%, como mostrado primeiramente. 





Dentre as várias reações, como correr, gritar, ou até mesmo ficar calada, uma delas me chamou a atenção há um tempo atrás quando vi no facebook. Débora Adorno, de 22 anos escolheu algo bem inusitado de escapar das investidas e dos olhares nas ruas. O "dentinho". A história viralizou pela internet, se você quiser saber mais clique aqui.



Não é a primeira nem última vez que falo sobre esse assunto abertamente na internet. Não importa quantas vezes acontecer, eu não vou abaixar a cabeça. A luta não vai acabar. Eu mereço ser livre, eu mereço andar sem medo nas ruas, eu mereço paz.

Um comentário:

  1. O pior disso tudo é que quando apontamos estamos sempre erradas. Você fez muito certo e no seu lugar faria o mesmo, não podemos nos calar. É nos por nos, ainda existe uma pequena parcela de homens que ainda presta; to cansada de andar por ai com medo. Enquanto existir machismo não estaremos seguras. E cuidado com esses caras, beijos

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